Dra. Elise Trindade: Representante do Instituto de Psicologia Prof. Jorge Trindade – Alienação Parental e suas consequências

Hoje entrevisto a Doutora Elise Karam Trindade, Psicóloga CRP 07/15329; especialista em técnicas psicoterápicas psicanalíticas com crianças e adolescentes (NUSIAF – Portugal); diplomada em Estudos Avançados (UNEX – Espanha); doutoranda na área de Intervenção Psicológica em Saúde e Educação (Instituto Superior Miguel Torga, Portugal); especialista em Psicologia Forense (IMED); membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Jurídica (SBPJ) e da Asociación do Latino-americana de Magistrados, Funcionarios, Profesionales y Operadores de Niñez, Adolescencia y Familia (ALAMFPyONAF, Argentina) ; Sócia do Instituto de Psicologia Prof. Jorge Trindade e idealizadora da Escala de Indicadores Legais de Alienação Parental.

Roberto Lacerda Barricelli O que caracteriza a alienação parental?

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Elise Trindade – A alienação parental é uma condição geralmente associada aos conflitos mais intensos de separação conjugal e disputa de guarda, na qual um genitor programa imotivadamente o filho para odiar, repudiar e denegrir o outro genitor. Desta forma, os filhos são utilizados como instrumento de vingança de um genitor contra o outro, muitas vezes por uma dificuldade em aceitar o fim do relacionamento conjugal.

Este fenômeno pode incluir não só o genitor alienado como também a família estendida (tios, avós, e demais familiares deste). Assim, os filhos são incentivados a odiarem e se negarem a ter contato não só com seu pai ou mãe, como também com as pessoas que fazem parte da família paterna ou materna.

Roberto Lacerda Barricelli Quais os danos que a Alienação Parental acarreta para a criança?

Elise Trindade – A alienação parental pode gerar nos filhos um fenômeno conhecido por síndrome de alienação parental (SAP). Alguns dos sintomas verificados na SAP são:  o ódio dos filhos pelo genitor alienado, a recusa em falar ou conviver com o genitor alienado sem que haja motivo para isso, repúdio à família estendida do genitor alienado,entre outros.

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Os efeitos verificados nas crianças e adolescentes que sofrem alienação parental podem ser tristeza, retraimento, agressividade, queda no rendimento escolar, entre outros. Isso porque, de forma abrupta e desmotivada, são privados de um dos genitores, que tratam de uma referência fundamental para sua formação como indivíduo. O quadro é grave e, dependendo da condição, pode ocasionar danos irreversíveis à saúde emocional dos filhos.

Se a alienação parental não for identificada e não forem tomadas medidas para coibir seus efeitos nefastos, pais e filhos podem passar muitos anos afastados e até mesmo nunca mais terem qualquer tipo de contato.

Roberto Lacerda BarricelliHá ferramentas, instrumentos para fazer uma perícia e constatar se há ou não a Alienação Parental? Como se dão esses procedimentos?

Elise Trindade – Sim. A perícia psicológica é um procedimento fundamental para a avaliação dos casos de alienação parental. A psicologia, como ciência, possui uma série de técnicas e instrumentos (inventários, escalas, questionários, entrevistas, entre outros) reconhecidos e validados cientificamente, que são capazes de aferir com certa garantia a ocorrência ou não de alienação parental. Uma perícia psicológica trata de uma avaliação de todo o contexto – atual e pregresso – que visa explorar aprofundadamente a história, características personalidade e comportamentos de cada um dos envolvidos para, assim, chegar a conclusões acerca da ocorrência ou não de alienação parental.

O psicólogo que avalia casos de alienação parental deve possuir comprovada formação e experiência na área. Isto porque para que sejam avaliados estes casos,o profissional deve conhecer a dinâmica e as sutilezas da alienação parental. Para tanto, o profissional pode utilizar-se do estudo dos autos do processo, se houver, e da avaliação psicológica das partes envolvidas.

Do ponto de vista do senso comum, e como forma de facilitar esta compreensão ao público em geral, a Equipe do Instituto de psicologia Prof. Jorge Trindade, da qual nós fazemos parte, idealizou a Escala de Indicadores Legais de Alienação Parental. Tal escala não se trata de instrumento científico, mas de um norteador simples e de livre e fácil acesso, capaz de auxiliar as pessoas na detecção prévia da ocorrência de alienação parental.

Roberto Lacerda Barricelli A Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, quer derrubar a lei que pune a Alienação Parental. Alega que mulheres estão perdendo a guarda dos filhos por denunciarem ex-maridos pedófilos. Isso é realidade? Justifica a abolição dessa lei?

Elise Trindade – É possível que, em alguns casos, a alegação de alienação parental seja falsa e utilizada de forma a obter certos resultados indevidos, assim como costuma ocorrer em diversos outros casos. Porém, em nossa experiência profissional cotidiana, deparamo-nos com diversos casos de alienação parental verídicos, que ocorrem justamente quando um dos genitores não é capaz de aceitar o término do relacionamento e utiliza os filhos como instrumento de vingança. Inclusive, muitas vezes, um dos atos de alienação parental são as falsas denúncias de abuso sexual supostamente praticado pelo genitor alienado contra o(s) filho(s).Tais denúncias são utilizadas pelo genitor alienador como ferramenta para obter um afastamento imediato do genitor alienado e seu(s) filho(s), já que, na maioria das vezes, a convivência é imediatamente interrompida ou passa a ser permitida somente sob supervisão de um terceiro.

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É importante destacar que cada caso é um caso, e como tal deve ser examinado. A revogação da lei pode significar um retrocesso e, sob o ponto de vista psicológico, uma verdadeira afronta às garantias de saúde mental na infância e adolescência. A questão não é revogar a lei, mas sim avaliar as situações com o rigor e seriedade que merecem e que a própria lei garante. Os casos de abuso sexual, por exemplo, realmente existem, mas as falsas denúncias e implantações de falsas memórias também, o que psicologicamente, pode ser muito perverso. Uma criança ou adolescente acredita que realmente foi abusada e sofre todas as consequências de um verdadeiro abuso. A questão não é a Lei e sim a forma como ela é utilizada, visto que, analisada em plenitude, a mesma garante a exigência de competência técnica dos profissionais capaz de aferir os casos reais de A.P.

Nós desejamos que nenhum filho seja afastado de sua mãe em consequência de uma falsa alegação de alienação parental, mas acrescentamos que, da mesma forma, nenhum filho deve ser afastado do pai por falsa denúncia de abuso sexual. A lei 12.318/2010 é um instrumento para garantir o convívio familiar e proteger crianças e adolescentes, não cabendo questões de gênero.

Roberto Lacerda BarricelliA Dra. possui vasta experiência e conhecimento na área, tendo escrito artigos e atuado em mais de 100 casos. Há algum padrão que possa ajudar na identificação e prevenção desses casos?

Elise Trindade – Embora a alienação parental quase sempre siga um padrão, é importante que cada caso seja avaliado de forma isolada, considerando todas suas peculiaridades. Para a identificação dos casos é fundamental que o profissional possua experiência e conhecimento sobre a temática e realize um estudo aprofundado do processo, se houver, e uma avaliação minuciosa das partes envolvidas. Nem sempre a alienação parental é verdadeira, assim como nem sempre um abuso sexual é verdadeiro. Por isso sempre devemos avaliar cada caso de forma isolada e livre da influência de outros casos já avaliados.

Chama a atenção, por exemplo, que muitas vezes enquanto casados, o pai era tido como exemplar e, após o rompimento, na maioria das vezes, depois de o genitor alienado iniciar um novo relacionamento, começam os atos de alienação e, de repente, o genitor passa a ser ruim, negligente e até mesmo um abusador. Essa relação entre a alienação e o novo relacionamento do outro genitor é bastante comum. Embora geralmente a alienadora seja a mãe, a alienação pode ocorrer por parte do pai ou até mesmo dos avós.

Roberto Lacerda BarricelliHá algum padrão de vítimas e/ou agressores? Algum perfil que seja majoritário?

Elise Trindade – É difícil estabelecer com segurança um rol de características que identifique o perfil de um genitor alienador. Geralmente alguns tipos de comportamento e traços de personalidade são denotativos de alienação como dependência, baixa autoestima, desrespeito a regras, hábito contumaz de atacar as decisões judiciais, litigância como forma de manter aceso o conflito familiar e negar a perda, sedução e manipulação, dominância e imposição, queixumes, histórias de desamparo ou, ao contrário, de vitórias afetivas, resistência a ser avaliado e resistência, recusa, ou falso interesse pelo tratamento. Além destes comportamentos, o genitor alienador, frequentemente, é movido por sentimentos como inveja, ciúmes, destruição, ódio, superproteção dos filhos, raiva, entre outros. Pode-se admitir que esses sentimentos derivam de um divórcio ainda mal resolvido para aquele genitor, o qual ainda não conseguiu superá-lo e transfere todos esses sentimentos para a criança, usando-a de forma brutal, contra o outro genitor alienado.

Roberto Lacerda BarricelliA Dra. idealizou a Escala de Indicadores legais de alienação parental. Pode explicar o que é e qual a função?

Elise Trindade – A escala de Indicadores Legais de Alienação Parental é um instrumento que visa auxiliar as pessoas na detecção da Alienação Parental. Trata-se de um questionário digital de auto-resposta, gratuito. Pais ou filhos podem responder às perguntas e ao final verificar se há ou não a vivência de indicadores legais de alienação parental! É importante frisar que não é um teste, mas um instrumento com padronização objetiva que busca auxiliar na identificação destes casos.

Para acesso gratuito à escala, basta acessar o seguinte link: http://escaladealienacaoparental.com.

Roberto Lacerda BarricelliQual seu conselho para pais ou mães que estejam na posição de vítimas da Alienação Parental e até sofrem falsas acusações dos agressores (como de agressão sexual contra a criança, ameaças etc)?

Elise Trindade – Nossa idéia é que estes pais e mães busquem profissionais que tenham experiência na área para receber orientação sobre como proceder caso esteja ocorrendo alienação parental. É importante ressaltar que a alienação parental inicia com comportamentos sutis e quase imperceptíveis por parte do genitor alienador (como falar mal do pai para o filho, dizendo que ele não paga a pensão ou que agora tem uma namorada e logo terá outra família). Se estes comportamentos não forem identificados e coibidos, a tendência é que gradativamente se tornem mais sérios e até mesmo cheguem às falsas denúncias de abuso sexual. Aconselho que esses pais não desistam. Sabe-se que todo o processo de averiguação costuma ser demorado, sofrido e desgastante. Caso o genitor alienado se conforme com a situação e não busque a resolução do conflito, o afastamento pode dar mais ferramentas para o alienador, informado ao filho que o pai não deseja e não luta por ele.

Por fim, queremos agradecer a oportunidade da entrevista, esperando que ela possa útil para o esclarecimento da população.

Elise Trindade; representante do Instituto de Psicologia Professor Jorge Trindade


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Roberto Barricelli

Roberto Barricelli

Jornalista e historiador. Diretor de Comunicação da Liga Cristã Mundial, foi assessor de imprensa do Instituto Liberal (RJ). Desenvolve estudos nas áreas de filosofia, história e ciência política.

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