Mourão: o vice-presidente que não se conforma em não governar


Em Esparta havia dois reis, ambos antigos militares saídos da agogê e dos campos de batalha. Vigorava ali, portanto, uma diarquia. Os dois governantes gozavam de poder semelhante e as decisões cabais do Estado só podiam ser tomadas se houvesse consenso entre eles.  No fim, um limitava possíveis ambições tirânicas do outro. Na República Romana o consulado também era organizado dessa forma. Dois cônsules eram escolhidos dentre os senadores aristocratas com as mesmas finalidades que se via entre os Lacedemônios. O governo de um só era o pesadelo de helenos e latinos.

No Brasil atual, porém, as coisas não são assim. Há séculos o mundo já inventou outros mecanismos e outras instituições que concorrem em poder com o chefe de governo como que lhe segurando as rédeas. E o vice-presidente, na nossa democracia, definitivamente não tem essa prerrogativa.

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O problema Mourão

O general Hamilton Mourão, vice de Jair Bolsonaro, a despeito do que nossos costumes e leis digam sobre o que lhe compete no governo, parece querer reencenar, dentro de um quadro histórico totalmente diverso, o modelo de governo de duas coroas como se via nos povos da antiguidade mediterrânica. Talvez o general, ainda com a alma na caserna, não tenha conseguido digerir o revés hierárquico que a democracia provocou de modo que ainda não lhe soe cabível apenas seguir, enquanto general, as ordens de um capitão.

As tensões entre os dois remontam dos tempos de campanha. Vale lembrar que Mourão nunca foi unanimidade e, até um dia antes do anúncio do vice na chapa, Bolsonaro via-se instado a escolher entre pelo menos mais três nomes: o também general Augusto Heleno, a então jurista Janaína Pascoal e o herdeiro da Casa Real Luiz Philippe de Orleans e Bragança.

Depois de escolhido, o general da reserva, nos momentos derradeiros de uma campanha marcada por ser uma verdadeira guerra de narrativas, passou, de modo irresponsável e louco, a despejar frases polêmicas, de cunho antipopular, dando aos oposicionistas enfraquecidos fôlego novo e munição poderosa.

Foi estranho, também, o posicionamento bastante relaxado e nada combativo de Mourão quando do atentado que quase fez cessar a vida do então candidato Bolsonaro. Em uma entrevista à Globonews, logo depois da facada, o general mostrou uma serenidade que beirava ao desdém e, ao invés de cobrar, com a dureza de quem vê um companheiro combalido, a busca e punição severa de todos os envolvidos no crime, Mourão preferiu falar em “pacificação” e, endossando o coro da grande mídia e mesmo dos adversários políticos, catalogou o ato como um “ataque à democracia”.

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Antes de sacramentado o último pleito, as participações atrapalhadas e comprometedoras de Mourão foram tolhidas não por um exercício do seu bom senso, mas pelo próprio Bolsonaro que, sentido o prejuízo que a performance de seu vice vinha lhe causando, ordenou que ele se recolhesse e se calasse momentaneamente. É de se cogitar se, nesse ponto, as cordas que atiçam o orgulho não foram aí tangidas.


Porém, o clímax da contenta tem se dado agora, nesse primeiro mês de governo. Mourão tem deixado claro, em diversos posicionamentos públicos e mesmo em atos, que quer criar uma linha secundária e concorrente dentro do governo. Quer ser o Pompeu ao lado do César.

Vejamos a seguir a lista de problemas criados, até agora, pelo general contra o capitão:

Ernesto Araújo

Em matéria publicada no último dia 18, na revista Época, Mourão engrossou as fileiras do establishment e pôs em suspeição as capacidades do novo chanceler Ernesto Araújo. O escolhido de Bolsonaro vem defendendo algumas mudanças de paradigma nas nossas relações internacionais, como a busca de se alinhar às democracias ocidentais em detrimento das ditaduras socialistas, a não ser por puro pragmatismo econômico, como no caso com a China – ao contrário do que se dava com o governo petista que se ligava a determinados países latino-americanos e africanos única e exclusivamente em função de sua posição no Foro de São Paulo e no seu papel na geopolítica russo-chinesa. Como não podia ser diferente, Ernesto tem sofrido duras críticas de quem não tem interesse nesse novo rumo do Itamaraty, o que equivale a toda a classe intelectual, midiática e políticos esquerdistas.

Deu-se, contudo, que diante desse festival de acusações, distorções e chacotas de intelectuais e figurões da mídia contra Araújo, o vice se sai com a seguinte declaração:

Acho que uma boa seria [sugerindo uma chamada para a matéria difamatória contra Araújo]: “Terá Ernesto condições de tocar e dizer o que é a política externa do Brasil?”. Porque ele não falou o que pretende fazer. Grifo nosso.

Palestina

Ainda no que toca a essa querela com Araújo, Mourão postou-se como neutro quando não como contrário em relação à mudança de embaixada do Brasil para Jerusalém. O vice chegou a receber uma comitiva de palestinos e parece lhes ter tranquilizado dando a entender que não há por enquanto uma posição fechada no governo – ainda que Bolsonaro e Araújo já tenham assinalado que são favoráveis à mudança.

O Governo Mourão

Quando assumiu o cargo de presidente interino, no dia 21, devido à viagem de Bolsonaro ao Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, quase todo o trabalho do general foi concentrado no sentido reconstruir sua imagem perante a opinião pública. Mourão tem feito força hercúlea para ser pintado nos jornais e revistas como um moderado, um esclarecido, um gentil-homem, em contraste com o bronco, truculento e radical que ora ostenta, quiçá injustamente, a faixa presidencial.

Jean Wyllys

Um episódio que marca o início dessa empreitada foi sua posição diante do autoexílio de Jean Wyllys, deputado que já protagonizou uma série de desavenças contra o convalescente Bolsonaro e que é um dos mais radicais opositores a tudo que a atual gestão representa.

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Jean Wyllys, surpreendentemente, abandonou sua cadeira no parlamento e fugiu para a Europa alegando estar sofrendo ameaças de morte – não apresentando, até agora, nada que corroborasse a narrativa. Daí que, sem nenhuma conclusão do caso e com motivos de sobra para se suspeitar da lisura dessa história envolvendo Wyllys – que já se tornou um embaixador do “golpe” e da “ditadura” Bolsonaro no exterior – Mourão, o good cop, publicou em sua conta no Twitter que “quem ameaça parlamentar está cometendo um crime contra a democracia” – o mesmo que disse no caso da facada real e concreta contra seu companheiro, demonstrando que dá o mesmo peso às duas coisas. Ademais, acrescentou em entrevista que quem suspeita de uma ligação entre Wyllys e Adélio, psolista que esfaqueou Jair, justificando assim a fuga abrupta do parlamentar, estava apenas incorrendo em um “wishful thinking”, ou seja, um mero desejo de que isso fosse verdade, como se a hipótese mesma não tivesse nenhuma sustentação no mundo dos fatos, como se fosse apenas coisa da cabeça de bolsonaristas ressentidos e conspiracionistas.

Olavo de Carvalho

Na senda dessa polêmica com Wyllys, um novo capítulo se abriu na estremecida relação Mourão-Bolsonaro: o filósofo Olavo de Carvalho, notando o comportamento esquisito do general que vinha tratando a imprensa oposicionista e hostil com todos os afagos e rapapés que, ao mesmo tempo, negava ao aliados – como o próprio Olavo que, sendo o grande responsável pelo substrato cultural que viabilizou a vitória de Bolsonaro, passou a ser alvo diário de uma vasta campanha de assassinato de reputações posta em operação por toda a grande mídia – fez um vídeo criticando duramente a postura de Mourão que, segundo o filósofo, estaria sendo covarde diante dos inimigos.

A fala de Olavo abalou de vez, mesmo que de longe, as relações entre os donos da Alvorada e do Jaburu. Mourão, interpelado sobre o pronunciamento de Carvalho retorquiu: “quem se importa com a opinião do Olavo”?

Acontece que, mais de uma vez, o próprio Bolsonaro creditou sua ascensão ao trabalho de Olavo. Inclusive, no primeiro pronunciamento como presidente eleito Jair tinha na sua mesa, ao alcance das mãos, um exemplar do best-seller O Mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, uma coletânea de textos do filósofo. Ademais, é consabido que dois ministros – o já mencionado chanceler e também o ministro da Educação, Ricardo Veléz Rodríguez – e mais uma plêiade de outros funcionários da cúpula governista, como o assessor especial de Bolsonaro para assuntos internacionais Filipe Martins, são indicações diretas ou indiretas do escritor.

À pergunta do Mourão, por conseguinte, não há outra resposta: metade do governo liga para as opiniões do Olavo.

Aborto

Não obstante, a gota d’água dessa quizomba toda deu-se hoje. Mourão, em mais uma conversa com a imprensa que já o apelidou de “Mozão” nos bastidores, declarou-se favorável à livre escolha da mulher no que diz respeito ao aborto, o mote central da propaganda feminista radical que quer liberar, mesmo que aos poucos, o aborto de forma irrestrita – chegando às raias da psicopatia assassina como nos casos recentes da Colômbia e de Chicago onde se abriu precedentes para que se possa abortar até o nono mês de gestação, ou, ainda, como no caso do Estado da Virgínia, onde querem permitir o homicídio da criança também no pós-parto, ficando, doravante, legalizado o infanticídio. Talvez seja mais um costume espartano que apeteça o general.

O Bolsonaro, que no passado tinha uma posição ambígua nessa questão e, no esteio do malthusianismo mais chinfrim, advogava por um controle de natalidade como método para diminuir a pobreza e a criminalidade, nos últimos tempos reviu sua postura e, como plataforma de campanha, se posicionou como um pró-vida, ou seja, como alguém contrário à liberação do aborto, inclusive assinando importantes termos de compromisso com lideranças católicas e protestantes.

Nesse momento delicado, uma declaração dessas do vice-presidente escancara, para quem quiser ver, a divisão que se criou no governo. Mourão quer seu próprio nicho, quer ser representante de uma parcela da população, quer ter seus próprios aliados no governo, quer fazer valer suas próprias convicções, quer ter o apoio da establishment. Em suma, quer dividir o poder.    

Para finalizar, voltemos à analogia histórica. Pompeu, o adversário de César, o outro cônsul que não queria perder sua quota no poder, malgrado tivesse lá sua clientela no populacho, era, no fim das contas, o preferido da elite. Porém, o amado pelo povo e que, por isso mesmo, prevaleceu na disputa, foi César. Imagino que aqui se dará o mesmo – sem a necessidade da mesma guerra – e logo o vice se aquietará.

Só cuidemos para que, nesse entretempo, não surja um Brutus a rondar o presidente.


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ta falando coisas demais , opniao pessoal e pra pessoa que nao seja publica, isso da pb

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