Marxismo cultural, teoria da conspiração e jornalismo de Wikipédia

Quando você quer evitar a discussão ou calar a boca de alguém, chame-o de algo moralmente deplorável (como racista ou fascista) ou classifique suas ideias, já de antemão, como “teoria da conspiração”. Mesmo que, na verdade, o que você esteja fazendo seja um espantalho com as palavras da pessoa, agora alvo de chacota como loucura conspiratória. A partir deste momento, apenas um doido ou pervertido ousaria questionar o assunto, dado como encerrado. Certo?

A expressão “marxismo cultural” é pobre e imprecisa. Serve somente como uma maneira limitada e simplista para se referir a um fenômeno filosófico muito mais complexo, que se estende por décadas. Quem estudou o suficiente dos autores frankfurtianos (quase todos judeus marxistas que fugiram de Hitler para os EUA), Antonio Gramsci (fundador do Partido Comunista Italiano) e outros relacionados sabe que, especificamente, a noção de marxismo cultural nunca apareceu em seus escritos — e nunca houve cooperação formal entre as partes, como já escrevi a respeito. Marxismo cultural serve, portanto, apenas como um início de conversa, um modo sucinto de abordar algo concreto, mas denso e multifacetado.

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“Jornalismo”
A Folha destacou que marxismo cultural seria uma teoria da conspiração em texto que, desde o título, já decreta uma conclusão — e tenta, assim, pensar pelo leitor. Curiosamente, bem escondido no meio da matéria (que parece artigo) há o seguinte trecho: “Não é mentira que exista uma tradição na esquerda que trata da crítica dos valores da sociedade capitalista — ou que defende a disputa pelas instituições culturais”. O uso de “não é mentira” em vez de “é verdade” merece nota, também, como joguinho malandro de escolha de palavras para minimizar o impacto da admissão.

Em seguida, o jornalista menciona que Gramsci “falava em conquista da hegemonia”. Ou seja: o próprio texto que tenta colar a imagem de desvairados nos conservadores ao chamar, logo de início, o tal marxismo cultural de teoria da conspiração, reconhece neste e em outros trechos o forte aspecto cultural e hegemônico de vários autores marxistas caros à esquerda — e que esta é, portanto, uma discussão válida e ainda aberta.

O jornalismo usual de hoje: o título, muito mais lido pelo público em geral, já traz uma conclusão. Mas, escondida no meio da matéria-artigo, uma admissão de que ideias contrárias ao título são defensáveis e razoáveis

De fato, o que realmente importa não é a etiqueta “marxismo cultural” enfatizada no texto da Folha. O foco no rótulo reduz uma questão vasta e complexa a uma mesquinharia terminológica e serve apenas para distrair do essencial: as ideias, sua história e os fenômenos socioculturais ligados a elas — muito reais e de grande efeito. Além disso, qualquer pensador medíocre sabe que o uso de termos simplificadores e analógicos consiste em uma ferramenta útil para ao menos dar início a um diálogo sobre um tema complicado. Por fim, a matéria-artigo também propõe que os conservadores, em grande parte, acreditariam em alguma conspiração mundial marxista coordenada por diversos atores ao longo da História. O absurdo nunca é documentado pelo jornal como algo real e de escala relevante; é somente inferido e usado, assim, como justificativa para desmerecer qualquer questionamento sobre o assunto.

Enxergar uma relação involuntária entre ideias, interesses e ações semelhantes com base em livros, artigos e outros documentos públicos não é o mesmo que detectar uma conspiração — algo intencional, realizado de propósito. Mas fazer esta confusão e criar a impressão de que direitistas são insanos e maus pode ter útil função retórica para o jornal e outros membros da mesma classe intelectual, majoritariamente “progressista” — ou seja, de esquerda — como já demonstrei antes (ver as fontes ao fim).

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Controle
Compartilho uma surpresa: alguns anos atrás, tive forte intuição de que “marxismo cultural” na Wikipédia viraria, em pouco tempo, uma extravagância da “extrema-direita” (não ouse pensar em extrema-esquerda, que sequer existe para a maioria dos jornalistas e acadêmicos, nem mesmo para classificar o ditador Nicolás Maduro. Extrema-direita é, claro, figurinha carimbada). Por isto, fiz um registro em imagem no final de 2013 que segue abaixo, ao lado da versão atual, de janeiro de 2019.

“Marxismo cultural” na Wikipédia: em dezembro de 2013, o texto era bem mais razoável e admitia a discussão. Clique para visualizar melhor
A mesma expressão em janeiro de 2019, entretanto, já chama de “teoria de conspiração” logo na primeira linha. Clique para visualizar melhor

As diferenças são notáveis: em 2013, marxismo cultural era um “conjunto de ideias”, um “desdobramento do marxismo que concebe a cultura como forma de subversão aos valores culturais que constituem a base da sociedade ocidental“. A ênfase é filosófica e diz respeito à história detalhada do pensamento de autores como os da Escola de Frankfurt e Antonio Gramsci.

Mas a versão de 2019 toma um caminho bem diferente. E não perde tempo: quem a editou sabe que, hoje em dia, pouco se lê além do início — como título jornalístico. Já na primeira linha, a Wikipédia mais atual registra que “marxismo cultural é uma teoria da conspiração difundida nos círculos conservadores e da extrema-direita”, um soco no fígado para ninguém ousar tocar mais no assunto. As ideias parecem familiares? Claro. Significa que a Wikipédia quase resume a profundidade jornalística do texto da Folha e que, se você tão somente tiver interesse em investigar o tema, deve ser algum sociopata sem alma. Especialmente quando, um pouco mais abaixo, a versão de 2019 da Wikipédia associa o tal marxismo cultural ao nazismo. Pois é. Ainda por cima, esta mudança drástica da expressão ao longo dos anos é, ela própria, exemplo e efeito da ocupação de espaços tipicamente gramsciana, já bem ajustada à era digital.

E é isso que interessa aos mesmos intelectuais orgânicos: controlar seus pensamentos e intimidá-lo sobre a mera possibilidade de pesquisar por sua conta e chegar às suas conclusões — sem precisar que intermediários da classe pensante (eles mesmos) determinem sua visão sobre o mundo e as coisas. Se todo o resto falhar, tentarão calar sua boca. Minha sugestão: assuma a autoria de si e ignore este sufocamento mental. É um tigre de papel, uma ilusão perigosa. Mas é só uma ilusão.

Não surpreende, infelizmente, que este jornalismo de Wikipédia — tão comum hoje — se limite a apenas reforçar o conteúdo da mesma página, uma arena política poderosa e perigosa, em que a verdade é definida por quem a edita com mais ardor. Tal jornalismo toma aqui sua forma em uma matéria-artigo que começa pela conclusão e tem seu lapso de honestidade desonestamente escondido no meio.


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Marcelo Salgado Autor

Marcelo Salgado

Autor

Doutorando em Comunicação e tecnologias digitais, professor, jornalista e escritor de poemas e outras coisas. Um nerd em busca da verdade, mas disposto a falhar repetidas vezes.

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Excelente artigo! Parabéns!

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