A Bela e a Fera: a corrupção pela vaidade

Não poderia começar aqui falando de um dos meus contos favoritos e mais completos, na minha opinião, sem citar em suma o que G. K. Chesterton definiu:
“Há uma grande lição na ‘Bela e a Fera’: tem coisas que precisam ser amadas antes de ser amáveis.”
Isso pode pôr um fim a unidade final do conto com a perfeição e a genialidade que falta a quem vos escreve, mas há um aspecto oculto e tão importante quanto o que Chesterton sintetizou e que pretendo descrever aqui.

A Bela e a Fera sintetiza a relação entre dois tipos de beleza: uma é meramente estética, falsificante, idolátrica tanto no sentido narcisista, quanto no sentido de criar falsos ídolos e demônios. A outra é a beleza redentora, que purifica a alma bestializada pelo pecado do outro e que nos ensina a amar.
Porém quero me ater mesmo aos aspectos inversos da finalidade última do conto, apontada por Chesterton, e me voltar para o aspecto externo e periférico da trama do amor. Quero me ater ao vilão Gastão nesta minha pequena análise.
Gastão, mais do que todos os vilões de contos de fada, reúne em si condições que o tornam o vilão mais completo da Disney: em geral, ele é belo como outros, egoísta como outros, narcisista como alguns outros, arrogante como outros… Mas Gastão possui aquilo que quase nenhum outro consegue sintetizar em sua personalidade com tamanha perfeição simbólica: Gastão não ama exageradamente e somente sua beleza ou sua paixão pública por ela — como num “espelho, espelho meu” –, mas ama sua condição inteira, de ser inteiramente a negação do que se é. Gastão é a encarnação completa da falsificação e prostituição do próprio Eu.
Para melhor entendermos o que é a alma de Gastão, temos que entender o que era a alma da Fera no processo da maldição, que converte um belo príncipe na figura de uma besta demoníaca; naquilo que realmente era a imagem integral de sua alma. Não somente o homem em fera, mas tudo aquilo que o servia de adorno, se torna integralmente terrível e esfacelado, devido sua profunda amargura, remorso e incapacidade de amar — agora, até a si mesmo. Essa é a maldição mais terrível dos contos de fada, pois é o fim último de todos aqueles que não sabem amar. — Estão condenados a olhar para a rosa de suas vidas medíocres enquanto ela se esfacela. Entender isso é entender quem realmente é Gastão por detrás do belo semblante e os reais motivos e intenções que o levam a todas as ações, das aparentes mais nobres às mais injustas e desnecessárias.
Gastão deseja casar-se com Bela, não porque a ama, mas sim pelo fato de não conseguir chamar-lhe a atenção e conseguir dela admiração e respeito.Sua beleza e seu encantamento por si mesmo sempre lhe desobrigou de ter que amar alguém para conseguir sua atenção. Atenção e respeito é algo que ele sempre conseguiu dos outros sem fazer o menor esforço — mas com Bela, isso não funciona; não lhe é suficiente os atributos físicos ou materiais de Gastão.
Bela procura abandonar tudo aquilo que é medíocre e pequeno. Bela possui inteligência imaginativa e não se contenta com o mundo sem encanto e sentido de humanidade no cotidiano enfadonho e medíocre da vida humana do campo. E é por possuir essa inteligência que ela, diferente das outras moças, encantadas por ideais baixos e terrenos e pela idéia de segurança e conforto ao lado de um homem belo, rico e respeitado perante a opinião pública, não se entrega as investidas de Gastão. — E nada é capaz de sintetizar melhor o desejo de um narcisista, senão aquilo que ele não pode possuir.

O ponto alto do fingimento de Gastão e de sua ira desenfreada ao saber do amor de Bela pela Fera, é o seu ato de heroísmo mentiroso e cheio de rancor.Para ser herói de sua história inventada, o narcisista cria seu próprio paraíso e seu próprio inferno; cria seus próprios anjos e seus próprios demônios para a produção mentirosa da obra narcísica de sua vida delirante, onde sua imagem é o centro do universo. — Esse é o motivo que leva Gastão ao castelo da Fera para mata-la: A Fera é o espelho que ele anseia por quebrar para não mais ter de olhar para seu reflexo. É mal nele e que ele insiste não confessar, mas lançar sobre o outro.A narrativa do medo e da condenação do mal é o reflexo da inquietação mais profunda e periférica de sua própria alma, que joga o mal para fora, no outro e sempre no outro. Se lança contra o mal no mundo como um justiceiro social implacável, porque é incapaz de reconhecer nele mesmo tudo isso.– Esta é a maldição de Gastão.
Tudo em Gastão é fingimento. Tudo em Gastão existe para ganhar dos outros atenção e admiração. Gastão é a imagem daqueles que amam tanto a aparência e a opinião pública, que se esquecem do que realmente estão fazendo com suas almas, por dentro.Por dentro, Gastão é a Fera, e o conto da Fera redimida é a inversão mesma de Gastão. É o espelho antagônico da alma de Gastão.
O conto da Fera é o processo de negação do Eu narcisista para o Eu amante. É a conversão para o que há de mais belo nos homens e que só pode ser reconhecido no momento que o Eu se sacrifica incondicionalmente pelo outro. No momento que o Eu se abandona e deixa livre aquilo que ama, ele o ama na medida com que se ama e se abandona pelo outro. Amar é um eterno abandonar-se. Somente ai o encanto da Fera se desfaz e o Eu se encontra e se manifesta numa imagem real. Gastão é a impossibilidade disso tudo.


LeiaMais

CONTINUA DEPOIS DO ANÚNCIO
ANÚNCIO

Nos ajude a construir uma mídia independente, apoie o S1N7ESE e receba recompensas e vantagens por isso: clique aqui!


Conteúdo relacionado

Deixe um comentário
avatar
1000
  Se inscrever  
Notificação de
Próximo post