A Armadilha do Dr. Wolf


“Era uma vez um certo Eduardo, chamado o Lobo da Internet. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo da internet. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte…”.

Cito essa adaptação do início do clássico de Hermann Hesse O Lobo da Estepe[1] – e fique claro, pelos céus, que é uma adaptação – para falar das artimanhas do mais novo representante da direita autorizada: Eduardo Wolf. Vejamos, portanto, as diabruras do nosso nobre doutor uspiano.

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O Plagiário, o Assassino e o Filósofo: a Trama do Lobo Mau.

Em artigo intitulado Plágio, politicamente correto e paranoia no Inep de Bolsonaro[2], o nosso autor, com nítida intenção de difamar o Ministério da Educação do governo que, recém-nascido, mal ensaiou os primeiros passos, mira em um alvo aparentemente mais frágil e vulnerável para acertar, no fim das contas, um certo mestre, o alvo principal e preferido que, de um mês para cá, vem sendo maldosamente acoiçado, em bandos organizados, por todo mainstream midiático e universitário, o grande derrotado no derradeiro ciclo de reviravoltas que levou Bolsonaro ao Planalto.

Eis o expediente de Wolf. O autor começa o artigo citando a tragédia de 22 de julho de 2011 encabeçada e executada pelo norueguês Anders Breivik, terrorista que matou 77 pessoas e deixou centenas de feridos. Breivik, segundo se soube através de um livro digital que ele próprio publicou antes do crime[3], tinha como influência ideológica motivadora para a carnificina as teses acerca do marxismo cultural tiradas do artigo The New Dark Age[4] de Michael Minnicino publicado em 1992 pela Schiller Institute.

Aqui começa a trapaça. Primeiro Wolf tenta, de certo modo, equivaler o morticínio perpetrado por Breivik com um suposto plágio do texto de Minnicino feito pelo novo coordenador do INEP Murilo Resende Ferreira no artigo A Escola de Franfkurt: satanismo, feiúra e revolução publicado na revista digital Estudos Nacionais[5]:

A Escola de Franfkurt: satanismo, feiúra e revolução publicado na revista digital Estudos Nacionais[5]:

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Passados oito anos do massacre de Anders Breivik na Noruega, o artigo de Minnicino e a teoria conspiratória que ajudou a trazer à luz – o “ marxismo cultural” – continuam a fazer estragos. Felizmente, dessa vez, não estamos falando de um banho de sangue, mas sim de um constrangedor caso de plágio (ao que tudo indica) e de inaptidão intelectual e profissional para uma posição governamental.

            Como se vê, para o especialista em ética aristotélica, entra na mesma categoria de estragos um assassinato em massa e uma ainda não comprovada fraude no currículo lattes. Mas esse é só o início das maquinações. Wolf deixa escapar, em ato falho de quem vai com fome de lobo para devorar a presa, que queria menos registrar a fraude de Murilo do que enredá-lo juntamente com Olavo de Carvalho – a quem o coordenador do INEP reconhece como sendo uma de suas influências intelectuais –, com Bolsonaro e todos os movimentos a eles ligados, direta ou tacitamente, ao facínora de Oslo. É, no fundo, uma denúncia de que parte do governo está lotada por extremistas perigosos da mesma estirpe de Breivik.

Ao longo da semana, o inexperiente militante das teses de Carvalho e do movimento Escola Sem Partido viu-se às voltas com a questão da autoria de um de seus artigos, publicado em uma até então desconhecida revista digital dedicada a pautas reacionárias, intitulado “A Escola de Franfkurt: satanismo, feiúra e revolução”. O artigo, em verdade, não é mais que uma tradução (mal) adaptada do texto de Minnicino de 1992 – sim, um dos textos fundadores das teorias conspiratórias que levaram Breivik a matar 77 pessoas e a ferir outras 319.

            É aqui que nosso douto autor peca mortalmente. Na ânsia de urdir uma trama de relações que só existe em sua cabeça, Wolf comete o erro que, no artigo, ele mesmo jura combater: cria uma teoria da conspiração.

Olavo de Carvalho e o Marxismo Cultural

            Dentro do caótico universo da novíssima direita brasileira – se é que se pode enquadrar tantos movimentos díspares, dos libertários aos militaristas, que têm em comum, talvez, apenas um anti-esquerdismo raso, como direita – é fato que desde alguns anos circula nesse ambiente a terminologia marxismo cultural. Em traços rápidos, esse conceito serviria para descrever a tática adota pelo movimento comunista internacional após o fracasso, constatado depois da Segunda Guerra Mundial, em se disseminar mundo afora a revolução armada de tipo leninista. Segundo a tese, da última metade do século para cá o que se tem é a atuação coordenada dos movimentos enquadrados ideologicamente como marxistas não mais tramando golpes armados, mas destruindo desde dentro a infraestrutura que sustém a civilização ocidental, na medida em que os pilares espirituais, intelectuais e institucionais dessa civilização atravancam o processo revolucionário de maneira decisiva. Os responsáveis pelo novo plano seriam de um lado o think tank filo-marxista conhecido como Escola de Frankfurt e de outro o comunista italiano Antonio Gramsci que teorizou sobre a hegemonia cultural como sendo uma arma mais excelente do que o fuzil nesse novo front que se assomava ao raio de consciência da esquerda ocidental.

            A tese, por conseguinte, explicaria as abruptas mudanças de valores que se assistiu, nas últimas décadas, na Europa, nos EUA e nas áreas influenciadas culturalmente por esses dois polos. Explicaria a crise de identidade, a crise na igreja, a crise nas instituições e a crise nos costumes que fizeram a geração dos nossos avós e pais não compreenderem a configuração do admirável mundo novo de seus netos e filhos.

            Como toda explicação que pretensamente tudo explica, a tese do marxismo cultural ganhou alguma amplitude no grande público e, nessa onda de educação política cibernética, apareceu em milhares de novas versões simplificadas e, concedo, conspiratórias. Em alguma medida, o folclórico Cabo Daciolo muniu-se de partes fragmentárias da tese já quase transmutada em mito para participar do debate presidencial e, em vão, tentar convencer o grande público do mal invisível que nos oprime e domina sem que percebamos.

            No entanto, é do ofício do filósofo político, segundo o próprio Aristóteles, autor largamente estudado pelo nosso Wolf, separar o que é opinião (doxa) do que é ciência (episteme). E foi justamente isso que o alvo de Wolf, o filósofo Olavo de Carvalho, fez com o termo marxismo cultural.

            Em artigo de 2002 de título Do Marxismo Cultural, publicado no jornal O Globo, Olavo, em boa medida, subscreve-o nos mesmos termos de Minnicino atribuindo ao fenômeno o título de quarta modalidade de marxismo como que se seguindo às modalidades clássica, soviética e revisionista, sucessivamente[6].

No entanto, logo seguida, em 2003, no artigo A Natureza do Marxismo[7], Olavo já começa a depurar sua descrição inicial do fenômeno enquadrando o marxismo ele mesmo não como uma ideologia, mas, antes, como uma cultura o que já relativiza a ideia de que a mudança da estratégia ostensivamente usada pelos movimentos marxistas possa substituir o fato de que a penetração marxista na sociedade, por armas ou não, é sempre cultural.

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            Mais tarde, em 2017, numa aula de seu frequentado curso de filosofia online, o filósofo diz o seguinte acerca do uso do termo marxismo cultural:

Todo exame dialético parte de termos usados retoricamente que, mais tarde, no curso do exame, você vai jogar fora. Se eu não partir de conceitos parciais que estão circulando na discussão pública retórica, vou examinar o quê[8]?

            O que ele chama ali de termo retórico e conceito parcial é justamente o marxismo cultural. Ao longo da aula ele demonstra porque não acha mais a terminologia adequada e enquadra o fenômeno dentro de uma outra chave de análise que vê como mais precisa, qual seja, a do movimento revolucionário que se articula dentro de um quadro ainda mais amplo da análise política olaviana sobre a mentalidade revolucionária[9].

            Ou seja, já há pelo menos dois ou três anos Olavo renunciou ao uso do termo como sendo o mais adequado para analisar o fenômeno descrito no texto de Minnicino.

            E aqui está o outro problema de Wolf.

Conspiradores Indiscretos

            Numa entrevista para o canal do YouTube Quem Somos Nós?[10] em que versou sobre a Nova Direita o Dr. Lobo, em dada altura, diz que não sabe porque os jornalistas de economia da mídia são enviesados, em seus comentários, à esquerda. Ele constata o fato, mas não sabe sua causa. Expliquemos, pois.

            A constatação do fato é a base mesma da análise daquilo que ele chama “ teoria da conspiração do marxismo cultural”. Se o termo marxismo cultural não é suficiente para descrever o que ocorre no mundo dos fatos, não quer dizer que a realidade mal descrita não exista e, mais, que não exista de maneira mais ou menos próxima à descrição feita por aqueles que adotaram, provisoriamente, a malfadada terminologia.

            Se Lukács, Marcuse, Habermas, Horkheimer  et caterva, não se reuniam num bunker obscuro nas mais tenebrosas madrugadas nova iorquinas para junto com milionários e políticos tramar a ruína do ocidente – que é mais ou menos o espantalho criado por Wolf – isso não elimina o fato de que movimentos marxistas militantes façam uso da teoria crítica frankfurtiana para, sim, concorrer ao solapamento de certas estruturas da civilização ocidental que atravancam a lógica do progresso que, segundo o próprio Wolf, na entrevista supracitada, está na raiz do que se chama, hoje, de esquerda.

            Se não há um programa universal e exaustivamente disseminado ordenadamente para toda a militância marxista no mundo com base na teoria da hegemonia de Antônio Gramsci, não significa que, na prática, a teoria não tenha sido largamente testada e não tenha conseguido grandes êxitos. O Brasil, inclusive, no recorte histórico dos anos de 1960 à atualidade, é um case perfeito para uma análise científica da eficácia ou não da tática gramsciana de dominação política pela via cultural. Ou Wolf vai dizer que o aparelhamento das artes, das cátedras universitárias e da mídia, que se seguiu aos estudos que os marxistas brasileiros fizeram sobre Gramsci nos anos 60 e 70[11], foi puro acidente ou que se trata, também, de um delírio conspiratório?    

            Que o termo e mesmo o fenômeno descrito por Minnicino, o suposto guru de Breivik, sejam inadequados ou insuficientes, não muda o fato de que, no mundo ocidental pós-guerras, aqueles que se enquadram dentro da mutante tradição marxista mudaram o enfoque de um embate aberto e declarado com tendências belicistas para uma crítica sistemática e corrosiva da civilização ocidental e uma penetração cuidadosa e sub-reptícia nas instituições que cuidam de preserva-la.

Breivik, Murilo, o Lobo e o Mestre

  1. Anders Breivik, o assassino de Oslo, foi enquadrado como um fanático de extrema- direita.
  2. Ao traduzir o artigo que motivou a ação diabólica de Breivik, Murilo é também um fanático paranoico de extrema- direita – talvez em vias de abrir fogo em pleno MEC.
  3. Em sendo uma poderosa influência intelectual de Murilo Olavo é, sem dúvidas, um filósofo fanático paranoico de extrema- direita, na linha de Minnicino, o guru de Breivik, que está formando uma gang numerosa de proto-Breiviks que, quando menos esperarmos, sairá em louca chacina contra seus algozes civilizacionais.

Esse é o argumento que subjaz ao malabarismo retórico malfeito pelo Dr. Wolf. Ele sabe, no fundo, que as associações são abjetamente mentirosas, mas tem que sustentá-las de algum modo para atingir aquele que não consegue engolir – por Lobo que seja.

Wolf tem em boa conta uma certa linha intelectual de direitistas – ou conservadores – “esclarecidos”, que são os anglo-saxônicos, bem vestidos, bem aceitos na academia. São aqueles que se pode citar nos artigos publicados nas revistas lidas nas chiques e esotéricas rodas dos “pesquisadores sérios”. Olavo não pode. Ele é, nas tácitas palavras do nosso doutor, o símbolo máximo do obscurantismo mendaz e violento que vem tomando conta, gradativamente, de parcela da direita reacionária hoje no poder no Brasil.

 Mas dá para entender o empenhado doutorando da USP. O que pesa é que, no fundo, por menos acadêmico que seja, por menos que se enquadre nas exigentes etiquetas do intelectual gentil-homem, é Olavo quem é lido, ouvido e estudado. E isso o Wolf e os seus, os conservadores de boa-estirpe, gente bem graduada e bem-quista entre os “civilizados”, não suportam. Dói ser ignorado.

Em resumo, Wolf, em seu artigo, mira em Murilo para acertar quem não pode atingir desde sua insignificância. De uma crítica pontual a um possível plágio – crítica justa e recomendável ao bom jornalismo – cria-se todo um samba do Lobo doido para arrastar-nos todos, alunos e admiradores de Olavo, para as fileiras de um temível serial killer e de um analista social no mínimo bastante confuso. Tudo isso, claro, com ares de rigor acadêmico e amor à verdade.

Finda a análise, portanto, pode se revelar o suspense deixado na introdução adaptada de Hesse: o que o nosso Lobo talvez não tenha aprendido é: estar contente consigo mesmo e com sua própria vida.


[1] HESSE, Hermann. O Lobo da Estepe. Rio de Janeiro: Record, 1955.

[2] https://complemento.veja.abril.com.br/pagina-aberta/plagio-politicamente-correto-e-paranoia-no-inep-de-bolsonaro.html

[3] BREIVIK, Anders. A European Declaration of Independence. Acessado em: file:///C:/Users/fabio/Downloads/2083+-+A+European+Declaration+of+Independence.pdf

[4] https://archive.schillerinstitute.com/fidelio_archive/1992/fidv01n01-1992Wi/fidv01n01-1992Wi_004-the_new_dark_age_the_frankfurt_s.pdf

[5] http://estudosnacionais.com/cultura/escola-de-franfkurt-satanismo-feiura-e-revolucao/

[6] In: CARVALHO, Olavo de. A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Campinas: Vide Editorial, 2014. pp. 159-162

[7]http://www.olavodecarvalho.org/semana/031218jt.htm?fbclid=IwAR0p3HRIK02EujhFnFTKqLb6Mm99CQv9eq5DsHoNj3SeNCcspsuFzIHk4nU

[8] https://www.youtube.com/watch?v=ISM3ymURQ44&t=357s

[9] A Estrutura da Mentalidade Revolucionária: https://www.youtube.com/watch?v=mQqMrr6uo2g

[10] https://www.youtube.com/watch?v=22W9zQH3MYg&t=393s

[11] Para uma análise exaustiva da influência de Antonio Gramsci na formação da esquerda brasileira contemporânea ver: GORDON, Flavio. A Corrupção da Inteligência. Rio de Janeiro: Record, 2017. Capítulo 4: Gramsci no Brasil.


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Fábio Gonçalves – Sin7ese | Olavo de Carvalho

[…] de janeiro de 2019 ~ acordailha https://s1n7ese.com/article/a-armadilha-do-dr-wolf/ […]

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15.1.2019 | Olavo de Carvalho

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Danillo Flügge
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Danillo Flügge

Excelente texto. O erro do Wolf é o mesmo que um “doutô” em matemática veio mostrar em meu Face, confundir um signo com a coisa referente.

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